segunda-feira, 11 de abril de 2011

Entre o ceticismo e a esperança






O Brasil é conhecido mundialmente pelos seus três famosos dias de carnaval e pelo seu futebol premiadíssimo. Nos últimos anos, no entanto, a fama de nosso país tem se expandido para além de suas festas e de seus jogadores: a corrupção de nossos políticos chegou a um nível tão crítico que até no exterior nossos “homens de poder” se tornaram celebridades. Que temos políticos corruptos sentados no Congresso Nacional e nos “representando”, não é algo que desconheçamos e talvez nem seja algo que nos surpreenda ou indigne (não mais). O que nos causa indignação é a sensação de que a justiça nunca será feita.
Ano após ano contemplamos estupefatos esses representantes de si mesmos sendo conduzidos às mais altas cortes e voltando de lá ilesos, como se nossos tribunais fossem fontes de águas purificadoras capazes de tornar ilibada a mais reprovável conduta. A sociedade assiste, do lado de cá, toda sorte de dossiê, de operação, de CPI, com a expectativa ingênua de que tais procedimentos tenham um norte, de que em algum momento, por mais futuro que seja, o político seja penalizado por seus atos criminosos. No entanto, a impressão que temos é que as mãos da justiça estariam atadas e que na maioria das vezes, a própria legislação pertinente a cada caso possibilita interpretações múltiplas, adequadas a cada gosto.

Há, porém, um fio de esperança. Nossa expectativa frustrada encontra um amparo nos momentos em que vislumbramos um ou outro ato heróico por parte de nossos magistrados. Momentos em que a justiça se sobrepõe à politicagem renovando a esperança de uma sociedade quase às portas do ceticismo.

Por Lorena Brandizzi

quinta-feira, 3 de março de 2011

Uma análise do Poema II de "O guardador de Rebanhos"




O meu olhar

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

Alberto Caeiro, em "O Guardador de Rebanhos", 8-3-1914
O texto trata da questão da percepção do mundo pelo homem, da relação entre o homem e um mundo cuja essência é uma eterna novidade, caso o homem saiba “olhar”. O poema, escrito em versos livres, apresenta um texto repleto de palavras que fazem referência à natureza humana: inicialmente uma referência (positiva) aos sentidos do homem, à possibilidade de um contato direto com o mundo; posteriormente, há uma referência (negativa, por assim dizer) à sua capacidade de reflexão. Na primeira metade do poema temos palavras como “olhar”, “andar”, “vejo”, “nascer”. É interessante notar que a partir do 13º verso (justamente o verso que divide o poema ao meio), aparecem palavras que remetem à mente humana: “pensar”, “compreender”, “filosofia”, “saiba”. No entanto, tais palavras, aparecem revestidas de uma carga negativa, algo perceptível, como seria de se esperar, desde a escolha sintática: “Mas, não penso nele [Mundo] (...)”, “(...) Pensar é não compreender... / O Mundo não se fez para pensarmos nele / (Pensar é estar doente dos olhos) (...)”, “Eu não tenho filosofia (...)”, “(...) não é porque saiba o que ela [Natureza] é (...)”, “(...) Quem ama nunca sabe o que ama / Nem sabe porque ama, nem o que é amar (...)”, “E a única inocência [é] não pensar”. É igualmente interessante, a forma indireta como o autor constrói algumas dessas estruturas de negação, especificamente as sentenças em que ensaia uma definição do ato de pensar: ela não afirma que “Pensar não é isso”, mas que “Pensar é não isso”. Até quando não há um lexema de negação, essa estrutura é seguida, “Pensar é estar doente dos olhos”: não há o referido lexema, mas a própria palavra “doente” carrega consigo essa carga negativa, abominável, desagradável. O eu-poético faz uso dessa indicação negativa indireta nas sentenças em que deseja conceituar o ato de Pensar. Quando ele expressa a sua experiência individual no que diz respeito a esse tema, a indicação negativa é direta: “Mas, não penso nele [Mundo] (...)”,“Eu não tenho filosofia (...)”.
Voltando os olhos à estrutura geral do poema, o que se percebe é que há uma relação dialética entre as duas partes do poema: na primeira o eu-poético sugere que a partir do “olhar”, um olhar sem intermediários, é que o homem tem a possibilidade de acesso “à eterna novidade” do Mundo; na segunda, ele afirma que esse acesso é bloqueado a partir do momento em que há a intermediação da reflexão entre o olhar e a experiência de percepção do Mundo. Digo sugere quanto à primeira parte, porque o que o eu-poético descreve é a sua conduta (“meu olhar”, “tenho o costume”, “o que vejo”, “eu sei”, “sinto-me nascido”). Ao descrever de forma tão positiva e promissora a sua experiência pessoal, por assim dizer, há uma sugestão de que esse é o caminho desejável. Quanto à segunda parte, não há sugestão, há afirmações (parafraseando: ‘O Mundo não se fez para isso, mas para aquilo’, ‘pensar é não isso’, ‘quem ama nunca sabe o que ama’, ‘amar é isso’) e nessas afirmações, contraditoriamente, há negação, há a impressão (no sentido de imprimir) no leitor de algo indesejável no ato de refletir.
Concluindo, para não nos alongarmos mais, considerando todo esse movimento dialético interno ao poema, há uma contradição latente que salta aos olhos: o eu-poético deprecia a reflexão, a filosofia, o pensar, entretanto, o próprio poema é produto de um ato de reflexão, de um pensar filosófico, no sentido de um pensar que problematiza. Nada mais filosófico, mais problematizador do que questionar a validade do ato de pensar.

Uma análise do poema "Tão cedo passa tudo quanto passa!", de Ricardo Reis




Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.

Ricardo Reis, 3-1-1923

O poema trata da vida enquanto espaço da transitoriedade. Há a aliteração da consoante |s|, sugerindo uma atmosfera de suavidade, de calma, a mesma calma com a qual o eu-poético aceita a transitoriedade da vida. Uma transitoriedade que faz com que tudo se encerre de forma precoce. O segundo verso pausa antes de que se encerre o significado que sugere, há o efeito de cavalgamento: o referido verso se encerra de forma precoce, lançando seu conteúdo sobre o terceiro verso. O encerramento precoce do verso pode ilustrar a própria precocidade com que tudo quanto morre... morre. O eu-poético constata tal precocidade, e inicia o terceiro verso de forma definitiva e exlamativa: “(...) Morre!”. Essa morte é definitiva: assim como encerra a unidade gramatical, ela encerra tudo e o faz de forma precoce. Também é precoce a forma como o autor constrói as duas sentenças gramaticais que preenchem os dois primeiros versos (e parte do terceiro): as sentenças são construídas na ordem VS, “passa (...) tudo”, “morre (...) tudo”. O verbo antecede ao sujeito fugindo da ordem natural do português que é a ordem SVO. O verbo é inserido de forma precoce na estrutura gramatical da sentença, sugerindo, mais uma vez, a própria precocidade do fim da vida. O eu-poético percebe a natureza dessa dinâmica e chega à conclusão de que a fugacidade da vida se impõe de tal forma que nada do que há (e o que há é “tão pouco”) pode ser apreendido pelo pensamento, pela razão. Nossa impressão do mundo é apenas imaginação, produto de uma reflexão impregnada de subjetividade, de extrapolação, por assim dizer, pois nada é passível de “se saber”. Diante de tal conjuntura, o que resta ao homem é o carpe diem, é gozar a vida. Mas pode-se dizer que há algo como uma armadilha, algo que sugere um desconforto, uma limitação nesta sugestão de carpe diem: o eu-poético impõe o silêncio e essa imposição é taxativa, definitiva. Ele encerra o penúltimo verso sem encerrar a sentença gramatical, deixando suspenso seu último conselho (ou ordem). Ao finalizar a sentença o eu-poético cria um efeito semântico assimétrico, pois as três primeiras expressões passam a ideia de prazer, deleite: devo circundar-me de rosas, ou seja, estar em contato com o que é belo, agradável aos olhos, ao olfato, devo amar, relacionar-me com o outro, doar-me e receber a doação do outro, devo beber, sujeitar o meu paladar ao que lhe cause prazer, satisfação, e, por fim, devo calar (?!). A assimetria é flagrante. Como assim devo me calar? Sim, “(...) E cala”. Apesar de incluí-lo no final da unidade gramatical, o eu-poético negou-se a inserir esse último imperativo no final do verso, da unidade poética, pois para ele essa ordem não é acessória, ela é fatal, é capital. E o que é interessante é que, ao encerrar a unidade sintática a que pertence, a ordem de “calar” encerra tudo, pois “o mais é nada”. Esse silêncio carrega consigo uma atitude de submissão, de aceitação e até de credulidade passiva: tudo morre, mas não morre por morrer, morre ante os deuses, sob sua vontade. Aqui a presença também fatal dos deuses e dos seus arbítrios. Dessa forma, não há o que se objetar, não há o que questionar, não há nem o que se saber. Voltando ao início do poema, percebemos que há um paralelo estrutural entre o terceiro e o sexto versos: ambos iniciam-se finalizando o verso anterior. Esse paralelo pode ser também semântico, pois o que é a morte, se não um calar eterno, um calar tão definitivo quanto o “E cala” proposto/imposto pelo eu-poético? Há uma diferença entre os referidos versos, enquanto no terceiro verso o eu-poético apresenta sua constatação de forma exclamativa, quase como uma descoberta, no sexto verso não há exclamação, não há surpresa, há aceitação, conformação: há o ponto final, tão final, tão definitivo quanto o conselho/ordem de calar-se.

"A catástrofe e a solidariedade em O ano de 1993"


“O ano de 1993” é um obra cuja materialidade tem intrigado os críticos literários. O texto não é escrito em prosa, mas também não o é em verso, não se trata de um poema e é difícil reconhecê-lo como um romance. O livro compõe-se de trinta partes e é escrito em forma de versículos, sem pontuação alguma, como um fluxo ininterrupto. Entretanto, é interessante notar que a ausência de tais sinais gráficos não prejudica a compreensão do texto. Américo Antônio Lindeza Diogo, em seu artigo “‘O ano de 1993’: representação e poder”, define a obra de José Saramago como uma distopia. Américo Diogo defende a hipótese de que Saramago traz do futuro a ideia de um provérbio:
“Sendo importante a imprecisão genelógica, não parece valer muito a pena dar-lhe a volta em oitenta gêneros. Publicado em 1975, e necessariamente escrito antes, O Ano de 1993 é uma alegoria que produz uma duplicidade de sentido com base numa diferença: (...) um tropo em que o que se diz significa outra coisa (...). Especificamente, esta alegoria será da espécie da paroemia, enquanto (...) história ajustada a outros tempos e assuntos (...). Aqui o provérbio não seria trazido ao presente do passado, mas do futuro; e a ocupação do território por um exército invasor significa o fascismo caseiro. Estamos diante do topos conhecido da ‘cidade ocupada’ (...) narritivizado aqui como utopia ou distopia.” (p.65)
Saramago “conta” a história da humanidade no futuro ano de 1993. O espaço de toda a obra é um espaço de ruínas. Na verdade, esse espaço são dois: o espaço de dentro e o espaço de fora da cidade sitiada. Do lado de dentro está o ocupante, está a peste. Dentro também estão aqueles que se conformaram com a submissão, que aceitaram a dominação, a humilhação e o controle. Do lado de fora estão aqueles que fugiram, que se rebelaram e no meio das florestas formaram tribos. O poder do ocupante, no entanto, extrapola os muros da cidade, mas não completamente, pois, apesar de poder perseguir as tribos fugitivas por meio de seus animais mecânicos, ele não pode dominá-las como domina os que estão dentro da cidade.
Saramago, ao contar essa história, fala de dois tipos de conduta: a conduta da aceitação, da submissão e a conduta da resistência, da revolta. Tanto dentro quanto fora da cidade há o terror, o medo, a ruína. Mas do lado de fora ainda há resistência, ainda há esperança, ainda há solidariedade. Ao contar essa história de natureza escatológica, Saramago revela uma certa tendência pós-moderna, pois a pós-modernidade caracteriza-se por um sentimento de incerteza quanto ao futuro, por um sentimento de dúvida. Aquela crença no progresso que caracterizava a era moderna, aquela euforia, começa a esvair-se à medida que se percebe que a sociedade começa a caminhar para a destruição. Enquanto o pensamento moderno privilegia a ordem pelo progresso, a pós-modernidade tem como princípio a liberdade, a divergência. Percebe-se que o ocupante faz uso da tecnologia para oprimir os habitantes da cidade e perseguir os resistentes, como na 17a parte do livro em que os animais são desviscerados e transformados em animais mecânicos. Há uma crítica ao progresso desmedido ou inconsciente cujos frutos apontam para a opressão e a dominação do outro.
“O ano de 1993” foi escrito por Saramago na França, quando ele foi expulso de Portugal devido às suas ideias excessivamente críticas em relação ao seu país, ao atraso em que se afundava Portugal, vivendo de glórias passadas. Em seu livro Saramago enaltece o valor da liberdade, demonstrando que é preferível viver do lado de fora da cidade, debaixo dos perigos da natureza e das perseguições, do que viver debaixo do domínio do ocupante, debaixo da humilhação e da degradação, ou seja, é melhor lutar pela liberdade do que resignar-se, é melhor ter coragem do que “cavar túneis rasos” como os homens-topeira da décima parte do livro.
Dentre os inúmeros temas que podem ser abordados diante da pluralidade temática do livro, trataremos do aspecto da solidariedade entre os resistentes que fugiram da cidade e formaram tribos. Abordaremos a situação narrada na décima quarta parte do livro em que o narrador descreve a forma como se dava a proteção da tribo durante a noite: dois homens e duas mulheres permaneciam acordados nesse período, alertas quanto a qualquer perigo, defendendo “o sono cansado da tribo ou rebanho de gente que vagueia pelos campos” (p.55). Pela manhã a tribo desperta e se divide em quatro grupos para agradecer a proteção dos vigilantes. Em seguida, o homem do norte e a mulher do sul, e o homem do oriente a mulher do ocidente se unem em relação sexual. O restante da tribo celebra cantando o nascer de um novo dia enquanto os casais ainda permanecem unidos. O sol nasce e cobre os corpo nus que representam a esperança da tribo, pois garantem a sua segurança, a continuidade da vida.
Partiremos da hipótese de que a segurança da tribo deriva da união e do afeto e também da solidariedade. No entanto, também argumentamos que há uma motivação para essa solidariedade e que ela deriva da calamidade, do ambiente catastrófico em que se insere a tribo e que isso é uma característica da modernidade na obra.
A fuga da cidade sitiada representa para os componentes dessa tribo uma busca pela esperança, pois do lado de dentro da cidade não há esperança, não há perspectiva de mudança, há apenas submissão e humilhação como na ocasião em que “ao comandante apraz usar o chicote” (7a parte, p.29). Nessa ocasião é interessante notar como a autoridade despreza os valores da honra militar para fazer uso dos poderes ocultos do feiticeiro com o objetivo de apenas satisfazer um capricho. A redução de todos os habitantes da cidade a um corpo é necessária para que o comandante possa chicotear a todos de uma só vez. Não lhe basta chicotear apenas os lombos, como se faz aos escravos. Precisa chicotear-lhes as faces. Apesar de tamanha humilhação (pois noutros tempos a face chicoteada motivaria duelos), os habitantes da cidade não entendem as marcas reconhecidas nas faces, pois não se lembram de terem sido chicoteados e nem consentiriam em sê-lo, no entanto o foram. A cidade reduzida a um corpo simboliza a sociedade que enquanto corpo social se submete às mais diversas humilhações, a ponto de se permitir ser atingida em sua própria face, em sua própria identidade. Não se faz necessária a figura de um feiticeiro para que tal redução se opere, basta que a sociedade enquanto corpo uno se submeta ao poder da ideologia. A tribo que dorme protegida pelos quatro vigias prefere os perigos da noite aos perigos da opressão, prefere submeter seu corpo ao frio e à quase desumanização do que submeter sua face, sua identidade ao chicote da dominação.
Dentro da cidade, sob o domínio do ocupante, não há solidariedade. Além de se submeterem cegamente às humilhações e degradações que “apraz” ao ocupante impor-lhes, os próprios habitantes humilham-se entre si. É o que se vê na ocasião em que o ordenador determinou que todos fossem numerados na testa com números de 1 a 57229. O problema é que “ninguém reconhecia autoridade a quem tivesse número superior ao seu o que explica que o 57229 comesse com o cães (...)” . Dessa forma, em vez de unirem-se contra as humilhações propostas naquela determinação hostil, os habitantes aceitam e se acomodam de tal maneira que “os habitantes de 1 a 9 consideravam-se chefes da cidade e vestiam segundo a moda do ocupante” (19a parte, p.77), ou seja, uma ilusão lhes é oferecida e eles a aceitam sem nenhuma objeção. Entretanto, dentro de 24 horas os números serão invertidos e as humilhações serão retribuídas até à morte. O ambiente é tão catastrófico quanto do lado de fora da cidade. Os habitantes vivenciam a mesma calamidade, no entanto, entre eles não há solidariedade, não há afeto, não há união. Saramago sugere que na resistência a solidariedade se faz necessária para a manutenção do grupo, enquanto na submissão e aceitação inconsciente nem mesmo há a figura de um grupo, são pessoas que não se esforçam pela conservação da vida e da paz (do outro), pessoas que vivem por si e para si mesmas.
O mundo moderno, capitalista, é um mundo esmagador na medida em que se mostra um mundo sedutor, um mundo de mercadorias. O capitalismo tem que manter as pessoas nesse estado de ilusão ao mesmo tempo em que as mantém em uma situação de insaciabilidade. A continuidade do sistema capitalista depende da submissão inconsciente da sociedade às suas leis. Para que os que dominam continuem no domínio faz-se necessário que a ilusão seja perpetuada. Saramago, no entanto, ao criar uma situação em que esse processo se inverte, demonstra quão efêmero e ilusório é o poder. A situação ilustra o famoso dito popular: “Não faça aos outros o que não quer que façam a você”. Na sociedade moderna não há espaço para uma atitude deste tipo. A busca pelo lucro a qualquer custo e a busca pelo poder político partem justamente de um princípio oposto: o do egoísmo. O que dizer de Portugal e seu passado? Um país que vive de “glórias passadas”. Como cantou Fernando Pessoa, por causa da ânsia por tais glórias muitas mães choraram:
“Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão resaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!”
(...)
Fernando Pessoa, Mensagem, II Parte
Aqui cabe a mesma pergunta entoada pelo poeta: “Valeu a pena?”. A modernidade reservou para Portugal um lugar periférico. Não era possível para Portugal retomar o seu lugar de glória dentro do cenário europeu. O capitalismo é um processo irreversível. Portugal não poderia reconciliar-se com os seus anos de ouro, não poderia retomar o seu lugar de prestígio na Europa, pois o seu papel dentro da mesma modernidade que trouxe o capitalismo era um papel subalterno, o papel de periferia. O atraso de Portugal era a sua forma de participar da modernidade capitalista, uma modernidade que traz como característica a desintegração, a degradação, por mais que a globalização pareça justamente o contrário. A poesia se mostra como o espaço por excelência para a expressão de todas essas contradições, de toda essa tensão. Por tal motivo é que Adorno sugere que o fundamento de toda lírica individual seja “uma corrente subterrânea coletiva” (2003, p.77)
. Por mais subjetivo que pareça ser o poema, por mais alienado que ele venha a se mostrar, diante de uma leitura que se recuse a ser superficial ou ingênua, ele revelará um conjunto de contradições, toda aquela tensão para a qual não havia espaço no calor dos movimentos sociais. Ousamos aqui transpor a sugestão de Adorno para a obra de Saramago, mesmo diante da impossibilidade de classificá-lo como poema ou romance. Acreditamos que “O ano de 1993” revela contradições típicas da modernidade, como as já sugeridas acima.
Saramago, de certa forma, alerta o leitor quanto à necessidade de despertar. Ele apresenta a ocupação da cidade como um evento catastrófico, mas ao mesmo tempo desencadeador de processos importantes. Na vigésima primeira parte o narrador descreve a maneira como o homem regrediu a um estado de primitiva desumanidade para de lá reaprender a linguagem, mesmo que a princípio fosse a “a linguagem simplificada da fome e do frio” (20a parte, p.87). Américo Diogo, em seu já referido artigo sugere que “criar o mundo e reentrar na cidade equivalem-se: são um acto só de reivindicação da linguagem humana de que nos acharíamos momentaneamente alienados” (Ibdem, p.68). O autor ainda afirma que “de facto, e em todos os sentido, O Ano de 1993 transforma a pré-história dos homens, de que os homens ainda não saíram, numa natureza a que os homens regressam confiantes ainda quando as carnes tremem” (p.66). O autor reconhece até uma certa identidade entre as duas sociedade:
“Haveria, fora da História, uma sociedade natural - uma sociedade desocultada. Não seria isto uma utopia, mas um topos, e muito literalmente. Ora, pode facilmente observar-se que a tribo perseguida até à natureza (chega-se lá perdendo memória, linguagem, humanidade) e a cidade ocupada são tipos de sociedade muito similares, à conta de um radical empobrecimento político. A transparência da sociedade natural assenta numa identidade pré-cívica (a essência humana imagina-se como um resíduo instintual), a qual tem sua correspondência na identidade da urbe manipulada, que se poderia dizer pós-cívica. Dois inertes diferentemente avaliados, mas em ambos os casos um coletivo identitário - um não-eu resultante de uma solidariedade de células iguais.” (p.66, 67)
Nos vemos obrigados a discordo de Américo Diogo naquilo em que o autor aproxima a tribo dos habitantes que permaneceram na cidade. Não reconhecemos dentro da cidade nenhum tipo de solidariedade entre os habitantes, pelo contrário, o que constatamos de forma emblemática na ocasião em que cada morador recebe um número é a própria expressão da não-solidariedade, do egoísmo e da prepotência cega. Dentro dos muros da cidade ocupada não há solidariedade. Parece que foi necessária uma calamidade para que o homem se tornasse capaz de reaprender a ser homem, assim como foi necessário o desastre e a fuga para que o homem reaprendesse a ser solidário.
A tribo se refugia nas florestas e teme os perigos noturnos. No entanto quatro pessoas abrem mão do seu sono para defender o “sono cansado” daquele rebanho de gente. Não são quatro pessoas aleatórias, são dois homens e duas mulheres. Não há hipocrisia: eles estão “atentos a todas as sombras e gritam quando há perigo”. Eles defendem a tribo de toda “sombra”, da sombra do medo, da sombra da solidão, da sombra da desunião, pois os casais se unem pela manhã, personificando o próprio afeto que une a tribo. E protegem-na de uma sombra ainda maior, a sombra do desânimo que poderia levá-los à desistência, à rendição. E, assim, “a noite decorre muitas vezes calma” (p.55), possibilitando o nascer de mais um novo dia em cada um daqueles resistentes. Percebe-se, dessa forma, que a segurança da tribo, como dissemos acima, deriva do afeto, da união entre os casais que personificam ou representam a união de todo o grupo. A solidariedade só se manifestou em meio à calamidade, como se esta tivesse sido necessária para que o homem redescobrisse a própria humanidade. Pela manhã os casais se unem em uma união ainda mais íntima, “porque assim foi decidido que deveria acontecer todas as manhãs” (p.56). Quem decidiu que assim deveria ser? Talvez a própria tribo, talvez os próprios casais. Talvez eles assim o tenham decidido para que toda manhã se lembrassem do valor da união, para que mesmo depois das noites mais sombrias eles pudessem praticar um ato representativo do afeto que os leva todas as noites a sacrificarem-se pela continuidade da vida. O sol, ao inaugurar o novo dia, ilumina os quatro corpos nus, revelando em sua luz a solidariedade que se manifestou nas sombras, durante a noite.
Ainda há lugar para a manifestação de um outro sentimento: a gratidão. No momento em que a tribo agradece o sacrifício dos vigias parece haver uma quebra na união do grupo, pois ele se divide em “quatro grupos conforme os pontos cardeais e vai agradecer aos vigias a vida conservada” (p.56). Essa divisão é apenas física, pois é a manifestação de um sentimento que percorre todo o grupo. É interessante notar que tal sentimento não encontra lugar na sociedade moderna. A divisão social do trabalho traz a ideia de que cada um faz o que tem que fazer. Porque agradecer (de forma sincera, não com um ‘obrigado’ vazio e mecanizado) a um policial pela sua ronda noturna? Afinal, ele “recebe” para isso. Porque agradecer a um professor pela lição que ensina? Essa é a sua profissão, ele tem o “dever” de fazê-lo. No entanto, a calamidade desfez esses sistemas. Ninguém faz algo porque vai receber algo por aquilo. Todo e qualquer ato de solidariedade ou bravura entre os resistentes é motivado por um sentimento de união que torna possível a continuidade da vida e da resistência. É o que se percebe quando um homem rouba a luz do sol para garantir o retorno do ânimo (ou da própria vida) que se perdeu com o apagar do fogo. Esse elemento masculino sai em proteção da tribo e volta com sua mão erguida num gesto de oposição aos braços cruzados, em uma atitude de encontro do indivíduo com a coletividade. A tribo reconhece um ponto luminoso no companheiro que se aproxima, “uma labareda que vinha no braço levantado e que era a própria mão ardendo da luz do sol roubada” (18a parte, p.73). O que motivou tal atitude de bravura não foi a expectativa de uma recompensa pecuniária ou de um reconhecimento por parte de seus companheiros. O que motivou a atitude deste homem foi a solidariedade gratuita, o desejo de que sua tribo tivesse esperança novamente. Da mesma forma, o casal que se afasta da tribo numa noite chuvosa “suplica”. Quem sabe suplicaram por suas próprias vidas, mas os fatos que se seguem parecem não confirmar tal conjectura. A árvore os recebe dentro de si e junta ao sangue deles a sua seiva. Pela manhã o casal ouve os ataques que a tribo está sofrendo e a árvore, agora dotada de movimentos, sai da floresta e defende a tribo fazendo “dos seu ramos laços e lanças e dardos das folhas agudas” (p.83). Aqui também, mais uma vez, a solidariedade sobressai em meio ao desastre.
A respeito das personagens de “O ano de 1993”, Horácio Costa, em seu artigo “A construção da personagem de ficção em Saramago”, afirma que “neste relato fragmentário, em versículos, que narra a libertação de uma cidade ocupada, escrito sob o lema da ficção futurante-distópica”, Saramago privilegia um processo coletivo: “o da insurreição de uma população antes aterrorizada e a consequente expulsão dos invasores da cidade libertada” (p.207). Horácio Costa ainda explica que neste texto fragmentário “não há personagens no sentido usual da palavra e (...) as poucas figuras que nele aparecem se caracterizam pelo anonimato, pela ‘funcionalidade’ de ‘agentes da transformação histórica’”. Com base no que sugere o autor, é perceptível a formação de um corpo social diverso daquele que é chicoteado do lado de dentro da cidade. Os resistentes, mesmo em meio às mais diversas privações e perseguições, permanecem unidos e o corpo social que resulta dessa união é realmente um “agente de uma transformação histórica”: a suplantação do autoritarismo, a recuperação da cidade e a morte dos invasores, não como vingança, mas porque “eram os senhores da morte os empresários da tortura e por isso tinham de ser retribuídos na única moeda que conheciam” (28a parte, p.114).
“O ano de 1993”, como lembramos acima, foi escrito por Saramago em uma situação de degredo. Reconhecemos no livro uma mensagem para aqueles que ficaram em Portugal. No entanto, a obra de Saramago é universal e, em sua “ética-estética futurante distópica” (COSTA, p.212), representa uma mensagem para a humanidade. Dentro da interpretação aqui proposta, tal mensagem adverte quanto à necessidade de a humanidade despertar do estado de inércia em que a modernidade a deixou. Na história narrada em O ano de 1993 foi necessária uma calamidade para que o homem despertasse e esse despertar representou um retorno a uma natureza primitiva para que, de lá, ele pudesse re-aprender a linguagem, uma linguagem da qual a modernidade o privou, ou melhor, o alienou: a linguagem da fome, do frio, da solidariedade, enfim, a linguagem da resistência.
BIBLIOGRAFIA
ADORNO, Theodor W. “Palestra sobre lírica e sociedade”. In Notas de literatura I. São Paulo: Duas Cidades / Editora 34, 2003.
COSTA, Horácio. A construção da personagem de ficção em Saramago: da ‘Terra do Pecado’ ao ‘Memorial do Convento’. In: Revista Colóquio/Letras. Ensaio, no 151/152, Jan. 1999, p. 205-217. Disponível em: <http://coloquio.gulbenkian.pt/bib/sirius.exe/issueContentDisplay?n=151&p=205&o=p> Consulta em novembro de 2010.
DIOGO, Américo Antônio Lindeza Diogo. ‘O ano de 1993’: representação e poder. In: Revista Colóquio/Letras. Ensaio, no 151/152, Jan. 1999, p. 65-78. Disponível em: <http://coloquio.gulbenkian.pt/bib/sirius.exe/issueContentDisplay?n=151&p=65&o=p> Consulta em novembro de 2010.
LONTRA, Hilda (org.). Modernismo - Pósmodernismo - Modernidade - Modernidade tardia era do vazio. (Material publicado originalmente em <http://www.eternoretorno.com>, em agosto de 2008, consultado em fevereiro de 2010 e preparado pela prof. Hilda Lontra para a disciplina Literatura Portuguesa - Modernismo, UnB. Brasília, novembro de 2010)
MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa. São Paulo: Cultrix, 2008. 36a edição.
PESSOA, Fernando. “Mar Português” In: Obra poética. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar S.A., 1977. p. 82 (Mensagem/II Parte).
SARAMAGO, José. O ano de 1993. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

La parole de la nuit dans "La Rue Cases-Nègres", de Joseph Zobel

  La littérature des Antilles est complemment differente de tout ce que j’ai eu l’opportunité de lire dans ma vie. Je suis parti...