O Brasil gosta de celebrar números, mas evita encarar o que eles realmente dizem. É verdade que a taxa de analfabetismo caiu e hoje está em torno de pouco mais de cinco por cento da população acima de quinze anos. O problema é que esse dado, repetido como vitória, mascara uma realidade muito mais grave: o avanço silencioso do analfabetismo funcional. Milhões de brasileiros sabem decodificar letras, assinam o próprio nome, leem frases isoladas, mas não compreendem textos, não articulam ideias, não interpretam informações nem usam a linguagem para pensar com precisão. A prova disso está no hábito de leitura. Mais da metade da população não leu um único livro no último ano. Entre os que leram, a média não chegou a quatro livros, e ao menos um deles foi lido por obrigação escolar. Esses números não revelam apenas um problema educacional, mas um empobrecimento intelectual profundo.
Esse quadro não surge por acaso. Ele é alimentado diariamente por uma cultura que rejeita o esforço cognitivo. A lógica das redes sociais, dos vídeos curtos e do entretenimento imediato treina o cérebro para decidir em segundos se algo vale a pena e, quando vale, para consumir em fragmentos de poucos segundos. Atenção prolongada, leitura densa e reflexão passaram a ser vistas como incômodos. Esperar que crianças criadas nesse ambiente desenvolvam pensamento crítico sem uma intervenção deliberada é ingenuidade. E insistir que a responsabilidade é apenas do Estado ou da escola é uma forma confortável de terceirizar o que deveria ser assumido pela família e pelos educadores de maneira consciente.
A leitura em voz alta entra exatamente como um contraponto a esse processo de empobrecimento. Não é um recurso pedagógico secundário nem um gesto simbólico. É uma prática estruturante. A criança não aprende linguagem por meio de listas de palavras, comandos simplificados ou exercícios artificiais. Ela aprende por imersão. Aprende ouvindo frases completas, vocabulário rico, narrativas bem construídas. Aprende quando um adulto lê para ela textos que organizam o pensamento, apresentam relações de causa e consequência e exigem atenção contínua. Quem subestima esse processo ignora como a linguagem se forma.
Ler em voz alta oferece algo que a escola, sozinha, dificilmente consegue compensar mais tarde. Oferece um modelo de língua adulta, bem estruturada, muito diferente da linguagem empobrecida que domina grande parte das interações cotidianas. Os livros expõem a criança a palavras que não aparecem na conversa comum, a construções sintáticas mais complexas e a uma organização textual coerente. Isso amplia o vocabulário, fortalece a compreensão e cria bases sólidas para a leitura autônoma e para a escrita. Não se trata apenas de aprender palavras novas, mas de aprender a pensar melhor.
Há também um ganho que muitos ignoram por desconhecimento ou conveniência. A leitura em voz alta forma a consciência fonológica, o senso de ritmo da língua, a percepção de entonação e pausa. A criança passa a reconhecer padrões sonoros e estruturas narrativas sem que ninguém precise explicá-los. Esse aprendizado silencioso tem efeitos diretos na alfabetização e na compreensão leitora. Crianças que ouvem boas leituras entendem textos com mais facilidade porque já internalizaram a lógica da língua.
Além disso, a leitura em voz alta devolve à criança algo que o excesso de telas tem roubado: a capacidade de construir imagens internas. Diferentemente dos estímulos audiovisuais, que entregam tudo pronto, o texto lido exige imaginação. A criança precisa criar mentalmente personagens, cenários e ações. Esse exercício fortalece a autonomia intelectual e o pensamento simbólico. É nesse espaço interno que a curiosidade nasce e que o pensamento se aprofunda. Crianças não precisam de estímulos constantes, precisam de material de qualidade para pensar. A leitura oferece exatamente isso.
É preciso dizer com clareza: não é qualquer leitura que cumpre esse papel. Quantidade sem qualidade não forma leitores competentes. Textos pobres, adaptações simplificadas e releituras ideologizadas empobrecem a experiência linguística e intelectual. A literatura tradicional não se consolidou por acaso. Ela carrega riqueza de linguagem, densidade psicológica e estrutura moral que contribuem para a formação intelectual da criança. Substituir essas obras por versões diluídas é retirar da criança a oportunidade de contato com uma língua mais precisa e com narrativas que ajudam a compreender o mundo.
Diante disso, os argumentos mais usados para justificar a ausência da leitura em voz alta não se sustentam. Falta de tempo raramente é absoluta. Dez ou quinze minutos diários já produzem efeitos reais e mensuráveis. O cansaço precisa ser relativizado. Sempre há energia para o que consideramos prioridade. Se há tempo para séries, vídeos e redes sociais, há tempo para ler para uma criança. A diferença está na escolha. A leitura não rouba tempo, ela qualifica o tempo e fortalece vínculos.
Na prática, o caminho é simples, embora exija constância. Ler todos os dias, escolher livros com boa linguagem e imagens que dialoguem com a realidade, permitir que a criança manuseie o livro e peça repetições sem pressa. A repetição não é sinal de atraso, é sinal de assimilação. Ler com expressão, comentar palavras novas, fazer pausas e permitir que a criança reconte a história são atitudes que ampliam os efeitos da leitura. É preciso evitar transformar esse momento em tarefa. Quando a leitura vira obrigação, perde sua força formativa.
Na escola, a leitura em voz alta não pode ser tratada como atividade eventual ou recreativa. Precisa ser rotina. Professores precisam ser formados para escolher bons textos e ler bem. E a escola precisa envolver as famílias, deixando claro que essa responsabilidade não é delegável. Alfabetização verdadeira não se limita a decodificar palavras, mas a compreender, interpretar e pensar.
Defender a leitura em voz alta é defender algo mais amplo: a formação do pensamento. Linguagem precisa, imaginação ativa e capacidade crítica não surgem espontaneamente. Elas são construídas. Ler para uma criança é um gesto simples, mas abdicar desse gesto tem consequências profundas. Em um país que lê pouco e compreende menos ainda, insistir nessa prática não é romantismo. É urgência.

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